Dois pesquisadores encontraram no fórum da comarca de Chapecó um novo lugar de estudos. O professor de História e bacharel em Direito Maikel Gustavo Schneider, morador de Itapiranga, busca embasamento para entender como os religiosos influenciavam as investigações criminais no período entre 1922 e 1954, em sua cidade natal e na vizinha Mondaí. Já a licenciada em História e moradora de Coronel Freitas Ana Paula Sirtuli Pasa quer saber o que levou uma família de trabalhadores rurais sem-terra a abrir várias ações judiciais contra os empregadores nas décadas de 1970 e 1980 — atitude que resultou, inclusive, em homicídio. A principal fonte das respectivas pesquisas de doutorado e mestrado são processos preservados no arquivo do fórum de Chapecó.
A fase agora é de triagem. Ambos passam horas a virar cuidadosamente páginas amareladas e quebradiças. Maikel e Ana Paula separam os processos que abordam os temas a serem estudados, dentro dos períodos estipulados. Depois, a leitura de cada livro será obrigatória para buscar os fatos de interesse, muitas vezes expressados nas entrelinhas de depoimentos, interrogatórios e argumentações.
Criminalidade e religiosidade no Oeste catarinense
Maikel definiu o título da pesquisa como “Criminalidade e Religiosidade: processos crime em colônias étnico-confessionais no Oeste de Santa Catarina (1922-1954)”. A linha de pesquisa do atual professor do ensino médio reúne as duas áreas de formação de Maikel. Até abril, ele acredita que vai encerrar a triagem dos processos, que deve resultar em mais de 100 ações judiciais selecionadas. Dentre estas, fará uma nova classificação para distinguir crimes contra a honra, patrimônio ou vida.
“Estou realizando um sonho de trazer à tona fatos que passaram despercebidos, sem pesquisas nessa área. Pretendo identificar como a religião influenciava na fala e no comportamento dos envolvidos em um crime. Acredito que, estudando fatos criminais daquela época, podemos entender a sociedade atual”, explica o pesquisador. O período escolhido para estudo compreende as fundações de Mondaí (1922) e Itapiranga (1926) e as respectivas emancipações, ocorridas em 1953 e 1954. Pela universidade, Maikel terá o prazo de quatro anos para concluir o estudo, que ainda deve render um livro para possibilitar o acesso a toda a comunidade.
O estudante percorre 150 quilômetros de casa até o fórum de Chapecó. Hoje, Itapiranga é comarca, mas na época em estudo Chapecó abrangia toda a região. A mãe, Clara Kollmann Schneider, veio fazer companhia e aproveitar um dia no shopping, mas foi só começar a ajudar o filho que não saiu do fórum. “É encantador acessar todos esses arquivos! Meus avós fugiram da guerra, na Alemanha, e vieram para Itapiranga. Estou revivendo os passos seguintes deles e da minha família, que se confundem com a história da região. Estou aprendendo muito!”, conta.
Trabalhadores rurais sem-terra e a luta por direitos
Ana Paula se formou em agosto do ano passado em Licenciatura em História. Depois de superar três etapas seletivas, agora é oficialmente mestranda em História pela Universidade Federal da Fronteira Sul. O que se propõe a pesquisar é a micro-história de Coronel Freitas, onde vive. Assim, vai estudar sobre indivíduos invisibilizados pela macro-história: a classe trabalhadora rural sem-terra das décadas de 1970 e 1980.
A família em estudo teria iniciado diversos processos trabalhistas contra distintos empregadores. As reclamatórias trabalhistas registram empreitadas não pagas ou pagas inadequadamente. As brigas judiciais teriam sido, inclusive, a causa da morte de um empreiteiro. A vítima passeava pela cidade com a família quando foi atacada com golpes de faca.
“Minha base de estudos são os processos trabalhistas e judiciais, fichas sindicais, entrevistas e documentos oficiais da prefeitura. Percebo o registro de vários casos trabalhistas com violência que, no entanto, eram escondidos. Mas entendo que é importante compreendê-los porque colaboraram para moldar a sociedade e a legislação que temos hoje”, considera. Ana Paula terá dois anos para realizar a pesquisa, mas esse deve ser apenas o primeiro capítulo. “Após o mestrado, viso o doutorado para estudar o comportamento dos empregadores da época.”
Reconhecimento e apoio do Judiciário
A servidora responsável pela digitalização de processos e documentos antigos e históricos da comarca de Chapecó, Hedvig Olga Kottwitz, também cuida do arquivo do fórum. A organização cronológica e por unidade, feita por ela, facilita muito a pesquisa dos estudantes. Auxiliar na difusão do conhecimento guardado nas caixas completa a felicidade da servidora.
“É ótimo saber que somamos nos conhecimentos de seres especiais que alimentarão os tempos vindouros. Estou realizada por ajudar na expansão das informações históricas guardadas nesses processos. Faço a organização com atenção e carinho para gravar na memória o local de cada livro e, quando necessário, saber onde está. Para mim, são momentos únicos!”, celebra Hedvig.
Os pesquisadores assinaram termo de responsabilidade em que se comprometem a manter em sigilo os nomes e informações que possibilitem a identificação das partes envolvidas. Ambos precisaram de autorização da direção do foro da comarca para ter acesso ao arquivo. O atendimento burocrático foi agilizado pela chefe de secretaria do foro da comarca de Chapecó, Suzeli Scheffer Lucietto.
“O Poder Judiciário está inserido na sociedade desde a fundação dos municípios. Participamos efetivamente da história diária de cada comunidade onde atuamos. É nossa obrigação oportunizar o estudo do passado, dentro dos limites legais, já que a pesquisa contribui para discussões atuais e possibilita novos olhares para o futuro”, destaca Suzeli.







