Vacinação entra na prevenção cardiovascular como novo pilar

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A vacinação cardiovascular passou a ser tratada como novo pilar da prevenção, quando a Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) publicou um documento de consenso propondo essa mudança. A ideia é somar a vacina ao controle dos fatores de risco, às mudanças no estilo de vida e ao tratamento medicamentoso, porque infecções também podem elevar o risco de complicações no coração, sobretudo em quem já tem doença cardíaca.

Infecções também pesam sobre o coração

Durante uma infecção, o corpo dispara uma resposta inflamatória para enfrentar o agente infeccioso. Esse processo pode alterar a coagulação, acelerar os batimentos e exigir mais do coração. Em pessoas com aterosclerose — doença marcada pela formação de placas de gordura nas artérias — a inflamação pode desestabilizar essas placas e favorecer coágulos. Dependendo da artéria atingida, o desfecho pode ser um infarto ou um acidente vascular cerebral (AVC).

Um estudo publicado no New England Journal of Medicine mostrou que o risco de infarto ficou aproximadamente 6 vezes maior na primeira semana após a confirmação laboratorial de influenza. O próprio texto faz uma ressalva: esse aumento é relativo e temporário, e não quer dizer que 1 em cada 6 pessoas com gripe terá um infarto.

A COVID-19 também mostrou capacidade de provocar complicações cardiovasculares durante a fase aguda e depois da infecção. Em pessoas com insuficiência cardíaca, infecções respiratórias ainda podem desencadear descompensações que exigem atendimento hospitalar. É dessa relação que nasce a defesa de que prevenir infecções também ajuda a proteger o sistema cardiovascular.

Influenza é a vacina com mais evidência

Entre os imunizantes citados, a vacina contra influenza é uma das mais estudadas nesse cenário. Além de reduzir o risco de gripe e suas complicações, há evidências de benefício cardiovascular, especialmente em pacientes com doença coronariana. No estudo IAMI, publicado na revista Circulation, pacientes vacinados contra influenza logo após um infarto ou durante uma internação por doença coronariana tiveram menor ocorrência do desfecho combinado de morte, novo infarto e trombose de stent do que os que receberam placebo.

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A vacinação contra COVID-19 também entra nessa estratégia, principalmente pela proteção contra formas graves da doença, hospitalizações e complicações ligadas à infecção. Outras vacinas também merecem atenção: a pneumocócica protege contra infecções causadas pelo pneumococo, incluindo determinadas pneumonias; já a vacinação contra o vírus sincicial respiratório (VSR) ganhou importância com a disponibilidade de imunizantes para grupos específicos, especialmente idosos e pessoas com fatores de risco.

Isso não quer dizer que todas essas vacinas tenham o mesmo nível de evidência para reduzir infartos ou AVCs. O benefício cardiovascular direto é mais bem estudado para a influenza. Nos demais casos, parte da proteção esperada vem da prevenção de infecções graves capazes de descompensar doenças cardíacas. As indicações devem respeitar a idade, as condições clínicas e as recomendações vigentes do Programa Nacional de Imunizações e das sociedades médicas.

O cuidado precisa ir além dos fatores tradicionais

A prevenção cardiovascular avançou muito nas últimas décadas. A medicina aprendeu a controlar melhor o colesterol, tratar a hipertensão, reconhecer os riscos do diabetes e usar medicamentos capazes de reduzir eventos cardiovasculares. Hoje, porém, uma avaliação completa precisa ir além desses fatores tradicionais.

Obesidade, doença renal crônica, qualidade do sono, processos inflamatórios e histórico de infecções também influenciam a saúde cardiovascular. Por isso, a situação vacinal deve entrar na conversa no acompanhamento de pacientes com doença coronariana, insuficiência cardíaca e outras condições que aumentam o risco de complicações. Isso não substitui medicamentos, exames ou mudanças de hábitos; acrescenta uma camada de proteção a estratégias que já mostraram benefício.

Um paciente que controla bem a pressão arterial e o colesterol, mas continua vulnerável a infecções potencialmente graves, pode estar deixando de usar uma medida preventiva importante. A vacinação não elimina o risco de infarto ou AVC — nenhuma intervenção isolada faz isso —, mas reconhecer a relação entre infecções e eventos cardiovasculares amplia a capacidade de prevenção.

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O coração não funciona separado do restante do organismo. Proteger esse órgão também significa reduzir as agressões que outras doenças podem provocar. Por isso, perguntar sobre vacinação deve se tornar tão natural na consulta cardiológica quanto perguntar sobre medicamentos, atividade física e alimentação. As informações são da CNN Brasil.

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