O calor intenso afeta diretamente o funcionamento do coração e pode aumentar o risco de mal-estar, arritmias e até eventos graves, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Com as ondas de calor cada vez mais frequentes, médicos alertam que o sistema cardiovascular é um dos mais exigidos nesses períodos, sobretudo entre idosos e pessoas com doenças pré-existentes.
Para manter a temperatura corporal estável, o organismo aciona mecanismos automáticos de adaptação. Um dos primeiros ajustes ocorre nos vasos sanguíneos.
Vasodilatação e queda da pressão arterial
Quando a temperatura sobe, os vasos sanguíneos — principalmente os da pele — se dilatam para facilitar a perda de calor. Esse processo reduz a resistência vascular e tende a diminuir a pressão arterial.
“O organismo tenta compensar essa queda acelerando os batimentos cardíacos para manter o fluxo adequado de sangue”, explica Fernando Ribas, cardiologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.
Em pessoas saudáveis, esse ajuste costuma funcionar. No entanto, em alguns casos, o mecanismo falha. A combinação de vasodilatação e perda de líquidos pelo suor reduz o volume de sangue circulante, forçando o coração a trabalhar mais.
Sintomas comuns do calor extremo
Com menos sangue retornando ao coração, podem surgir sintomas como:
- tontura
- fraqueza
- escurecimento da visão
- sensação de desmaio
Pessoas com hipotensão postural (queda rápida da pressão arterial ao se levantar de uma posição sentada ou deitada, causando tontura, vertigem, visão turva ou até desmaios) ou síncope vasovagal (tipo mais comum de desmaio, ocorrendo quando o sistema nervoso reage exageradamente a um gatilho (como dor, estresse, calor ou ficar em pé muito tempo) tendem a sentir esses efeitos com mais intensidade, segundo os especialistas.
Desidratação agrava o risco cardiovascular
O suor é essencial para resfriar o corpo, mas provoca a perda de água e de sais minerais importantes, como sódio e potássio.
“A desidratação reduz o volume sanguíneo, acelera o coração para compensar e prejudica a perfusão dos órgãos”, explica Bruno Sthefan, cardiologista e médico do esporte, com títulos reconhecidos pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).
A perda de eletrólitos também interfere no sistema elétrico do coração, aumentando o risco de arritmias, especialmente em pessoas com histórico de doenças cardiovasculares.
Calor extremo e risco de infarto e AVC
Embora infartos e AVCs sejam mais associados ao frio, estudos recentes mostram que ondas de calor prolongadas também elevam o risco desses eventos, principalmente em grupos vulneráveis.
“O calor impõe um estresse adicional ao sistema cardiovascular. Com a desidratação, o coração trabalha mais e a perda de eletrólitos favorece arritmias. Esse conjunto pode precipitar infartos e AVCs”, explica Orlando Maia, neurocirurgião do Hospital Quali Ipanema.
Quem precisa redobrar os cuidados
Segundo os especialistas, alguns grupos são mais sensíveis aos efeitos do calor sobre o coração:
- idosos, que sentem menos sede e se desidratam com facilidade
- pessoas com hipertensão, diabetes ou insuficiência cardíaca
- pacientes que já tiveram infarto ou AVC
- atletas e trabalhadores expostos ao sol intenso
O uso de medicamentos como diuréticos e anti-hipertensivos também exige atenção. “Esses remédios favorecem a perda de líquidos e podem potencializar quedas de pressão”, alerta Fernando Ribas. A orientação médica é não suspender nem ajustar doses sem acompanhamento profissional.
Sinais de alerta no calor
Alguns sintomas exigem avaliação médica imediata, especialmente em dias muito quentes:
- desmaio
- dor no peito
- palpitações persistentes
- falta de ar fora do habitual
- confusão mental, principalmente em idosos
“Mesmo que os sintomas melhorem, quedas bruscas de pressão e alterações do ritmo cardíaco precisam ser investigadas”, afirma Orlando Maia.
Exercício físico em dias quentes
Durante a atividade física, o coração precisa irrigar músculos e pele ao mesmo tempo, elevando ainda mais a frequência cardíaca. “No calor intenso, isso aumenta o risco de exaustão térmica e arritmias”, explica Orlando Maia.
Médicos recomendam evitar os horários mais quentes do dia, buscar sombra, fazer pausas frequentes e reforçar a hidratação, incluindo reposição de eletrólitos quando o suor é intenso.
Além disso, orientam evitar álcool e excesso de cafeína, usar roupas leves e permanecer em ambientes ventilados ou climatizados sempre que possível. Medidas simples ajudam a reduzir o impacto do calor sobre o coração.
Fonte G1





