Esta semana fui desafiado a escrever sobre o Dia dos Pais, mas de uma ótica que normalmente não costumo escrever. Falar de meu pai e de mim, como pai. Confesso que foi um pouco desconfortável. Não pela falta de conteúdo, mas pela sensibilidade de um tema tão meu. Mas vamos lá.
A maior lembrança que tenho de meu pai, Domingos, é do tempo da minha infância. Ele trabalhando na lavoura ou chegando em casa, sempre suado, depois de uma jornada escaldante de sol no interior de Xavantina, ao lado da minha mãe Hilda. Depois, quando saí da casa, a lembrança forte é das palavras dele:
Cuidado com as más companhias e nunca me faça passar vergonha.
Pronto. Estava resumido em poucas palavras a sabedoria de um humilde agricultor, semianalfabeto a lição que eu até hoje guardo comigo e não consegui escrever melhor, mesmo com a experiência que a vida me proporcionou. Era “apenas” e “tudo” o que ele queria de mim.
O tempo me fez entender a profundidade destas palavras escritas séculos antes no livro de Êxodo 20:12: “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá.”
Vieram conquistas minhas e por várias vezes vi meu pai segurar a emoção da alegria e também das tristezas que teve. Domingos é um homem forte e não costuma exteriorizar o que sente. Guarda para si.
O tempo correu e tive a graça de ser pai de dois meninos (Arthur e Pedro) que me fizeram refletir e entender como ser um filho melhor do que sempre procurei ser.
E olha, que cada dia nos reserva surpresas. Seja nos pequenos gestos, seja nas grandes missões que os filhos assumem. Quem teve e tem a bênção de um referencial de pai como eu tenho é um vitorioso. E quem é capaz de inspirar filhos a seguirem a essência do que é ser pai, então é, um herói. Pena que estes exemplos estejam ficando cada vez mais raros.
Hoje, ao celebrar o Dia dos Pais escrevendo sobre a data, lembro dos desafios que cada pai enfrenta todos os dias. Não somente no sol, do suor e do cansaço, mas também pelos caminhos que muitas vezes se mostram sinuosos e árduos. O desafio da saúde e da educação dos filhos, de apontar caminhos em um mundo cada vez mais tentador, de estar perto, guiar e saber o momento certo de soltar-lhe a mão para que batam asas sem esquecer das raízes que os sustentam.
Ser pai não é apenas gerar descendentes e colocar-lhes o sobrenome de modo incondicional. Ser pai não é um mar de perfeições. É admitir a fragilidade e a humildade de mudar concepções, mas sem perder a responsabilidade de ser exemplo.
Ser pai é carregar o orgulho de ver descendentes lhe chamarem por esta palavra tão simples e tão grandiosa. É perder o sono com o choro quando bebês e quando demoram em voltar para casa quando adultos. É vibrar com cada conquista e chorar por dentro e transparecer uma muralha concreta e intransponível quando precisam de degraus para alçar voos.
O mundo está carente de referências sólidas e duradouras. O dia a dia está pautado no imediatismo e no vazio de relações que se medem por seguidores e curtidas. Mas cabe a cada pai e a cada filho, o desafio de propor e, principalmente, ser algo diferente para o mundo. Não basta apenas esperar um mundo melhor para nossos filhos. É preciso darmos filhos diferentes para o mundo e aí, sim, celebrar o Dia dos Pais em sua plenitude em cada dia que Deus nos presenteia, independente de qualquer conquista, seja ela material ou não.
Feliz Dia dos Pais e pensemos: somos os filhos que gostaríamos de ter?






