Milhares de pessoas em todo o mundo foram forçadas a trabalhar para redes de fraudes digitais, muitas delas sediadas no Sudeste Asiático, onde vivem em condições desumanas, denunciou nesta sexta-feira (20) a Organização das Nações Unidas. O relatório do Gabinete do Alto Comissariado para os Direitos Humanos documenta casos de tortura, maus-tratos, exploração sexual, abortos forçados e privação de alimentos, entre outras violações.
“A lista de abusos é avassaladora”, afirmou o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Turk, após a publicação do documento.
Centros de fraude espalhados por vários países
O relatório, baseado em centenas de testemunhos de vítimas, aponta a existência de centros de fraude digital no Camboja, Laos, Myanmar, Filipinas e Emirados Árabes Unidos entre 2021 e 2025. A presença dessas redes também foi relatada em países da África e das Américas.
As vítimas são provenientes de todo o mundo, com presença significativa de cidadãos asiáticos. O documento indica ainda que pessoas foram aliciadas em países europeus como França, Alemanha e Reino Unido, e da América Latina, incluindo Peru, Colômbia, Brasil e México.
“Cidades autossuficientes” fortificadas
Segundo os sobreviventes, eles eram mantidos em enormes complexos que se assemelhavam a “cidades autossuficientes”, com edifícios fortificados de vários andares, altos muros com arame farpado e guardados por seguranças armados e fardados. As pessoas eram forçadas a cometer crimes como roubo de identidade, extorsão e fraudes financeiras.
Aqueles que não atingiam as metas mensais de fraude sofriam todo tipo de punição. Muitos colegas morreram ao tentar escapar, caindo de varandas e telhados. Os que eram capturados após tentativas de fuga eram submetidos a castigos e maus-tratos.
Envolvimento de autoridades e resgate das vítimas
Nenhum dos entrevistados recebeu o dinheiro prometido pelas redes de tráfico e fraude. O relatório aponta que, em alguns casos, os criminosos contaram com a ajuda de policiais e guardas de fronteira, que também ocasionalmente cometeram abusos.
Diante das denúncias, o gabinete da ONU instou a implementação de operações de resgate coordenadas e seguras para as vítimas, bem como programas de reabilitação para os sobreviventes. Volker Turk apelou à “comunidade internacional” para que atue contra este fenômeno que afeta principalmente o Sudeste Asiático, mas que está se espalhando pelo mundo.
Em 2023, a ONU já havia estimado que centenas de milhares de pessoas foram recrutadas à força para praticar burlas online. O novo relatório aprofunda o conhecimento sobre a dimensão e a brutalidade desses crimes.




