Cientistas descobrem como prever El Niño e La Niña com mais antecedência

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Cientistas descobriram uma maneira de identificar quais previsões do El Niño e da La Niña podem ser mais confiáveis com até um ano de antecedência. O avanço pode ajudar governos e comunidades a se prepararem melhor para secas, enchentes e outros eventos climáticos extremos.

A descoberta foi apresentada em um estudo publicado na revista científica Science Advances, na sexta-feira (23). Os pesquisadores analisaram mais de 7,5 mil previsões históricas produzidas por modelos climáticos de nove países.

Os resultados mostraram que as condições do Oceano Pacífico no momento em que uma previsão é realizada influenciam diretamente sua confiabilidade nos meses seguintes.

A principal descoberta foi que as previsões iniciadas durante períodos de La Niña apresentaram desempenho consistente mesmo quando buscavam antecipar as condições climáticas um ano à frente.

Já as simulações iniciadas em períodos considerados neutros, quando não há El Niño nem La Niña estabelecidos, apresentaram resultados menos confiáveis.

Por que a La Niña pode facilitar as previsões climáticas?

O El Niño e a La Niña são fases opostas de um fenômeno climático natural conhecido como El Niño-Oscilação Sul (ENOS).

Durante o El Niño, ocorre aquecimento anormal das águas superficiais de parte do Oceano Pacífico tropical. Na La Niña, acontece o resfriamento dessas águas.

Essas mudanças afetam a circulação atmosférica e podem alterar a distribuição de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do planeta.

Segundo a pesquisa, o estado inicial do Pacífico tropical desempenha um papel importante na capacidade dos modelos de antecipar a evolução desses fenômenos.

A pesquisadora Mandy Freund, da Universidade de Melbourne, na Austrália, e coautora do estudo, explicou que o bom desempenho das previsões iniciadas durante a La Niña sugere que essas condições tornam o sistema climático mais previsível ao longo dos meses seguintes.

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Isso não significa que toda previsão realizada durante uma La Niña estará correta, mas que determinadas condições iniciais podem oferecer maior confiança aos cientistas.

Descoberta pode ampliar os alertas para secas e enchentes

Atualmente, os fenômenos El Niño e La Niña costumam atingir sua maior intensidade por volta de dezembro, e as previsões apresentam maior confiabilidade em horizontes de aproximadamente seis meses.

Antecipar sua evolução com um ano de antecedência continua sendo um desafio para os centros meteorológicos.

A nova pesquisa oferece uma possibilidade de melhorar esse processo, permitindo avaliar antecipadamente quais previsões merecem maior confiança.

Essa informação pode ser importante para setores que dependem diretamente das condições climáticas, como agricultura, abastecimento de água, geração de energia e defesa civil.

Com alertas mais confiáveis, autoridades poderiam ter mais tempo para organizar medidas preventivas diante do risco de secas prolongadas ou chuvas intensas.

Os efeitos, porém, variam conforme a região e as características de cada evento climático.

Inteligência artificial também pode melhorar as previsões

Os pesquisadores identificaram diferenças entre os métodos utilizados para prever o comportamento do El Niño e da La Niña.

Os modelos climáticos tradicionais, baseados em processos físicos, apresentaram maior dificuldade quando as simulações começaram em condições neutras do Oceano Pacífico.

Nesse cenário, métodos estatísticos e técnicas de aprendizado de máquina podem oferecer oportunidades para aprimorar os resultados.

A inteligência artificial pode ajudar a identificar padrões em grandes conjuntos de dados climáticos, complementando as ferramentas já utilizadas pelos pesquisadores.

Entretanto, o estudo não conclui que a inteligência artificial seja capaz de prever com precisão todos os eventos de El Niño ou La Niña.

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O principal avanço está na possibilidade de reconhecer antecipadamente as condições em que diferentes métodos apresentam melhor desempenho.

O que a descoberta significa para o Brasil?

O El Niño e a La Niña influenciam os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões brasileiras, embora seus efeitos não sejam iguais em todos os eventos.

Em determinadas situações, o El Niño pode favorecer chuvas acima da média no Sul do Brasil e condições mais secas em áreas do Norte e Nordeste.

A La Niña pode produzir tendências diferentes, dependendo da época do ano e da interação com outros fatores atmosféricos.

Por isso, previsões sazonais mais confiáveis podem contribuir para o planejamento agrícola, a gestão dos reservatórios e a preparação de municípios vulneráveis a eventos extremos.

Ainda assim, a identificação de um El Niño ou de uma La Niña não permite determinar, isoladamente, quando uma enchente ou uma seca ocorrerá em uma cidade específica.

Para isso, continuam sendo necessários monitoramento regional e previsões meteorológicas de menor prazo.

Quando a nova técnica poderá ser utilizada?

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores destacam que a abordagem ainda precisa ser desenvolvida antes de integrar os sistemas operacionais das agências meteorológicas.

Nandini Ramesh, autora principal do estudo e pesquisadora da agência científica australiana CSIRO, afirmou que os resultados podem ajudar a identificar quais previsões oferecem maior confiabilidade.

O objetivo é permitir que informações úteis sobre o comportamento do clima sejam divulgadas com mais antecedência, ampliando o tempo disponível para preparação.

A descoberta não elimina as incertezas das previsões climáticas, mas representa um avanço na compreensão de quando os modelos podem oferecer resultados mais seguros.

Com isso, a ciência poderá aprimorar os sistemas de alerta e apoiar decisões destinadas a reduzir os impactos de fenômenos climáticos extremos.

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