Depressão: sinais de alerta podem aparecer antes de pensamentos suicidas

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Quando se fala em depressão, a atenção costuma ir direto ao ato extremo que a doença pode levar um paciente a cometer contra si mesmo, mas o psiquiatra Dr. Isaac Efraim diz que o problema começa antes: para ele, essa atitude é a face mais grave de um processo mental de autodestruição que muitas vezes já vinha em curso, porque a mente interpreta a realidade, amplia perdas reais e estreita as saídas até transformar dor passageira em sensação de fim.

O que a mente faz com a dor

A mente humana não registra simplesmente o que acontece; ela interpreta. Um mesmo episódio pode ganhar sentidos muito diferentes conforme as experiências anteriores, as memórias e os padrões que cada pessoa carrega. É nesse intervalo entre o fato e a leitura que grande parte do sofrimento psíquico se forma.

Uma perda, uma rejeição, um fracasso profissional, uma separação ou uma humilhação são acontecimentos reais. O problema é o que pode nascer deles dentro da cabeça: imagens como “minha vida acabou”, “eu estraguei tudo”, “não tenho mais saída” e “nada vai melhorar”. Aos poucos, a pessoa deixa de sofrer só pelo que aconteceu e passa a sofrer também pelo cenário que constrói mentalmente.

É aí que surge o estreitamento da realidade. As alternativas continuam existindo, mas deixam de ser vistas. O futuro vira sempre o mesmo filme: dor hoje, dor amanhã, dor depois. Uma situação insuportável naquele momento passa a ser sentida como prova de uma vida inteira insuportável. Repetida muitas vezes, essa imagem mental pode ganhar força de realidade para quem sofre.

Quando a culpa vira identidade

Em algumas pessoas, esse processo se volta contra o próprio eu. A culpa deixa de dizer apenas “eu errei” e passa a dizer “eu sou um erro”. A diferença parece pequena, mas muda tudo: reconhecer um erro ainda permite corrigir, aprender e seguir; transformar a falha em identidade aprisiona.

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Nos estudos sobre culpa citados por Efraim, essa passagem vai da culpa para a vergonha e, nos casos mais graves, da punição interna para a autodestrutividade. Forma-se então um tribunal interno permanente. A própria pessoa ocupa todos os papéis: acusadora, réu e juiz. Ela cobra de si mesma o que acredita que deveria ter sido, feito ou conseguido. Não há como fugir desse credor, porque credor e devedor moram na mesma cabeça.

O efeito é circular. Quanto mais se pune, menos energia psíquica sobra para reconstruir a própria vida; quanto menos consegue reconstruir, mais motivos encontra para se punir.

Por isso ele considera imprecisa a ideia de que quem pensa em cometer um ato contra si mesmo simplesmente “quer morrer”. Muitas vezes, o desejo é outro: fazer terminar uma experiência de sofrimento. Morrer aparece para uma mente encurralada como solução para acabar com a dor. E há uma distinção central para a prevenção: não encontrar uma saída é muito diferente de não existir uma saída.

Frases como “pense positivo”, “você tem tudo para ser feliz” ou “olhe quantas pessoas têm problemas piores” costumam falhar porque discutem com a conclusão sem alcançar o processo que a produziu. A tarefa não é convencer aquela pessoa de que sua vida é maravilhosa. É ajudá-la a perceber que o filme que ocupa a mente naquele momento não é toda a realidade. O sofrimento é real; a interpretação de que ele será eterno não necessariamente é.

Prevenir esse desfecho não começa apenas quando alguém diz que pretende morrer. Começa muito antes: quando aparecem isolamento crescente, desesperança, culpa transformada em identidade, sensação de ser um peso, repetição de cenários mentais sem saída e perda progressiva da capacidade de imaginar um futuro diferente. Quanto mais cedo esse circuito é interrompido, maior a chance de devolver à pessoa algo que o sofrimento lhe roubou: perspectiva.

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Talvez essa seja a mensagem mais importante. No auge de uma crise suicida, não é necessariamente a vida que ficou sem possibilidades; é a mente que perdeu temporariamente a capacidade de enxergá-las. Aquilo que foi construído dentro dela pode ser compreendido, tratado e transformado. Entre a dor e a autodestruição existe um espaço — e é nele que precisam entrar o outro, o cuidado, o tratamento e uma nova possibilidade de futuro.

As informações são da CNN Brasil.

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