O aumento dos casos de sofrimento emocional entre crianças e adolescentes tem acendido um alerta importante para famílias, escolas e profissionais de saúde mental. Embora muitos jovens apresentem sinais claros de que algo não vai bem, esses indícios nem sempre são percebidos pelos adultos.
Segundo especialistas, vivemos um cenário preocupante, marcado por mudanças no funcionamento das famílias, uso precoce de tecnologia e dificuldades na construção de vínculos emocionais consistentes.
“Muitas crianças estão sofrendo, mas esse sofrimento nem sempre é verbalizado. Ele aparece no comportamento e, muitas vezes, não está sendo visto”, afirma.
Sinais silenciosos de sofrimento
Crianças e adolescentes costumam expressar sofrimento de forma indireta, como aumento da irritabilidade, isolamento, mudanças no apetite, queda no rendimento escolar, alterações do sono e perda de interesse por atividades antes prazerosas — alguns dos principais sinais de alerta. No entanto, a rotina intensa dos adultos tem dificultado a percepção desses sinais.
“Muitos pais estão sobrecarregados, divididos entre trabalho, responsabilidades e o próprio cansaço. Com isso, acabam acreditando que o filho está bem apenas por estar em casa, no quarto, aparentemente tranquilo”, explica a psicóloga infantojuvenil Tatiane Manetti.
O acesso precoce e sem supervisão à internet transformou o quarto em um espaço potencialmente vulnerável. Sozinhos diante de telas, crianças e adolescentes passam a ter contato com conteúdos inadequados, interações com desconhecidos e comunidades que, muitas vezes, reforçam sentimentos de inadequação, rejeição e sofrimento.
Uso precoce de smartphone: o que dizem as pesquisas
Estudos recentes em psicologia e saúde mental têm apontado uma associação consistente entre o uso precoce de smartphones — especialmente antes dos 12 anos — e a piora em indicadores de saúde mental.
Pesquisas internacionais mostram que crianças que recebem smartphones antes dessa idade apresentam maior risco de sintomas de ansiedade e depressão, baixa autoestima, distúrbios do sono, maior exposição ao cyberbullying e dificuldades de regulação emocional.
A ciência é clara em um ponto: o smartphone não é a causa única, mas é um fator de risco importante, especialmente quando associado a outros elementos, como falta de supervisão, isolamento e fragilidade emocional.
Se você não tem tempo ou energia para supervisionar, ofereça um telefone simples (ou dumbphone) ao seu filho, caso haja necessidade.
Jogos online e plataformas: o risco é real — e precisa ser reconhecido
Os jogos fazem parte da infância contemporânea, mas não podem ser tratados de forma ingênua. Plataformas como o Roblox, por exemplo, não são apenas jogos — são ambientes digitais complexos, com interação social aberta, conteúdos diversos e pouca previsibilidade.
O risco existe. Não é apenas sobre o jogo, mas sobre o ambiente. Crianças podem interagir com desconhecidos, acessar conteúdos inadequados e se expor emocionalmente sem maturidade para lidar com isso.
Entre os principais riscos estão: contato com estranhos, exposição a conteúdos violentos ou impróprios, cyberbullying, estímulos intensos e potencialmente viciantes e sensação de pertencimento em grupos que podem reforçar sofrimento.
Tente adiar o máximo possível o contato com jogos eletrônicos e telas em geral. A infância é única e breve (dura cerca de 10 anos) e criança precisa brincar, estar em contato com a natureza sempre que possível.
Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de entender que ela exige supervisão ativa e as crianças não podem estar sozinhas nesse ambiente.
A busca por pertencimento — e o perigo invisível
Crianças que se sentem excluídas ou invisíveis no mundo real tendem a buscar pertencimento no ambiente digital — e encontram. No entanto, muitas vezes encontram outros jovens igualmente fragilizados, criando uma rede que valida a dor, mas não promove saúde.
Em casos mais graves, isso pode evoluir para incentivo a comportamentos autodestrutivos ou até violência.
Mais uma vez, destaca-se a importância do diálogo e da supervisão.
Parentalidade em desequilíbrio
Se antes predominava o autoritarismo, hoje muitas famílias vivem a ausência de limites. Na tentativa de educar com respeito, alguns pais abriram mão da liderança.
“A criança precisa de direção e segurança. Sem isso, ela se perde”, afirma.
Pais não são amigos, são referência. A relação exige responsabilidade e tomada de decisão.
O mito da felicidade a qualquer custo
Outro ponto que preocupa a especialista é a tentativa constante de evitar qualquer desconforto na vida das crianças. “Muitos pais querem proteger os filhos de toda frustração. Mas isso cria uma armadilha”, alerta.
Pesquisas sobre felicidade mostram que pessoas mais satisfeitas com a vida compartilham uma característica em comum: a resiliência — ou seja, a capacidade de enfrentar frustrações, adversidades e continuar seguindo em frente. E essa habilidade não é inata; ela é construída.
“A resiliência se desenvolve justamente quando a criança enfrenta frustrações e aprende a lidar com elas. Quando evitamos todo desconforto, impedimos o desenvolvimento dessa habilidade essencial.”
O grande paradoxo da infância atual
Vivemos um cenário contraditório, as crianças estão cada vez mais protegidas no mundo real: não vão sozinhas à padaria, não brincam na rua, não exploram o ambiente com autonomia. Mas, ao mesmo tempo, estão completamente livres no mundo virtual: sozinhas, sem supervisão, com acesso a tudo. E é nesse ambiente que muitos riscos se concentram.
É importante destacar: A maioria das famílias não age por negligência, mas por falta de informação.
A infância dura cerca de 10 anos e, nesse período, as crianças são completamente dependentes dos adultos, tanto para necessidades básicas quanto para o desenvolvimento do discernimento sobre o certo e o errado. E tudo o que acontece nessa fase repercute ao longo da vida: inteligência emocional, hábitos, saúde mental e até condições físicas.
Os pais e cuidadores precisam reconhecer seu papel central nessa formação.
O que realmente protege uma criança?
Muito mais do que controlar ou proibir, o caminho está na presença, no tempo diário que você dedica ao seu filho para:
• olhar nos olhos (conversar, contar histórias da sua infância, brincar);
• conviver o máximo possível e verbalizar o quanto ele é amado e importante para você;
• estabelecer limites claros (ter uma rotina diária clara e previsível);
• acompanhar o uso da tecnologia (se possível priorizar outras atividades sem telas);
• construir um vínculo seguro.
“Cuidar da saúde mental das crianças começa pelo adulto, pela forma como ele se posiciona, se faz presente e conduz essa relação.”
Tatiane Manetti – Psicóloga Especialista em Infância e Adolescência, Orientadora Parental, especialista em Psicoterapias Cognitivas e Promoção de Competências e Habilidades Sociais





