Quem conheceu Chapecó há cinco ou dez anos e caminha pelo Centro da cidade percebe rapidamente que a paisagem urbana mudou. Onde antes predominavam casas e construções baixas, hoje são erguidos edifícios cada vez mais altos. O que muitas vezes é percebido apenas como sinal de crescimento econômico, no entanto, é resultado de um processo histórico complexo, que envolve decisões políticas, mudanças nas leis urbanísticas e estratégias do mercado imobiliário.
Uma dissertação defendida no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Chapecó analisa justamente esse processo. O trabalho “A produção do espaço urbano e a verticalização: uma análise da cidade de Chapecó/SC”, da pesquisadora Taís Schoenberger, com a orientação do professor Ederson Nascimento, investigou como e por que a cidade passou a crescer para cima nas últimas décadas.
Uma cidade que passou a crescer para cima
Chapecó é frequentemente reconhecida como um dos principais polos agroindustriais do Sul do Brasil. O dinamismo econômico e o crescimento populacional da cidade, no entanto, também trouxeram transformações profundas na forma urbana.
Segundo o professor Ederson Nascimento, o tema da verticalização vem sendo estudado na universidade há mais de uma década, dentro de uma linha de pesquisa dedicada a compreender o crescimento urbano e as desigualdades socioespaciais na cidade. “A gente procura entender como uma cidade que apresenta um dinamismo econômico e demográfico bastante grande tem crescido e quais são os desdobramentos dessa dinâmica. Esse crescimento acontece de duas formas principais: pela expansão horizontal, quando a cidade se espalha para novas áreas, e pela verticalização, que é o adensamento por meio de edifícios”, explica ele.
Metodologia e mapeamento
Para reconstruir a história da verticalização em Chapecó, a pesquisa utilizou uma metodologia que combina diferentes fontes de dados e técnicas de análise espacial. O trabalho envolveu a análise de imagens aéreas históricas, fotografias, documentos urbanísticos e dados cadastrais, além de entrevistas e trabalho de campo. As imagens de diferentes períodos — 1979, 1988, 1996, 2012 e 2022 — foram analisadas por meio de técnicas de geoprocessamento em ambiente de Sistema de Informações Geográficas.
A partir desse levantamento, a pesquisadora identificou e mapeou todos os edifícios com cinco ou mais pavimentos na cidade. Cada construção foi registrada em um mapa digital com informações como localização, endereço e número de pavimentos. “Quando a gente coloca todos esses dados em mapas, é possível ver claramente a expansão do processo. Os primeiros edifícios aparecem concentrados no centro, depois o processo começa a se expandir para outras áreas”, argumenta Taís.
Da concentração no centro à expansão pela cidade
Os resultados da pesquisa mostram que a verticalização em Chapecó começou de forma tímida. Na década de 1970, os edifícios ainda eram poucos e concentrados na área central. Um dos fatores que limitava esse crescimento era a própria legislação urbanística da época. O primeiro plano diretor da cidade, elaborado em 1974, restringia as construções a um número reduzido de pavimentos.
Com mudanças na legislação ao longo dos anos seguintes, as regras passaram a permitir construções mais altas. “Mas quando começam as mudanças nas regras urbanísticas, especialmente no final daquela década e nos anos seguintes, o número de edifícios aumenta e eles passam a ser cada vez mais altos”, ressalta o professor.
Esse processo se intensificou nas décadas seguintes. O Plano Diretor Físico-Territorial de 1990 ampliou o perímetro urbano da cidade e estabeleceu novas diretrizes para o uso do solo, introduzindo parâmetros como índice de aproveitamento, taxa de ocupação e limites de altura das construções. A dissertação revela que, apesar das tentativas de organização do crescimento urbano, o centro continuou concentrando a maior parte dos edifícios. Ao mesmo tempo, bairros periféricos mantiveram uma ocupação predominantemente horizontal, reforçando diferenças espaciais dentro da cidade.
Interesses e impactos urbanos
Um dos principais pontos da pesquisa é mostrar que a verticalização não pode ser explicada apenas pelo crescimento econômico da cidade. Segundo o estudo, a expansão dos edifícios resulta da interação entre diferentes agentes sociais, especialmente o mercado imobiliário e o poder público. “Para que os empreendimentos aconteçam, é necessária uma articulação com o poder público, que define as regras urbanísticas e as condições para construção”, explica o professor.
Segundo Taís, o trabalho de campo também revelou mudanças significativas na paisagem urbana. “Em alguns lugares, aparece um prédio muito alto no meio de um bairro de casas, criando um contraste muito grande na paisagem urbana.”
Além das mudanças visuais, a verticalização também traz impactos no cotidiano dos moradores. O estudo aponta que a construção de torres muito próximas entre si tem gerado conflitos relacionados à qualidade de vida, como a redução da circulação de ar e da iluminação natural em apartamentos vizinhos, além do aumento da pressão sobre o trânsito e a infraestrutura urbana.
A pesquisa mostra que a verticalização se consolidou como uma das principais características da urbanização de Chapecó nas últimas décadas. “Mais do que uma tendência arquitetônica, o fenômeno reflete mudanças profundas na forma como a cidade é produzida e organizada”, destaca a mestre.
“Em Chapecó, a verticalização continua avançando. As escolhas feitas hoje no planejamento urbano vão definir como será a paisagem e a qualidade de vida da cidade nas próximas décadas”, finaliza Taís.





