Amamentar até os seis meses ainda esbarra em dor, falta de apoio e volta ao trabalho em Chapecó

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A recomendação parece simples: até os seis meses de vida, o bebê deve receber somente leite materno, sem água, chás ou outros alimentos. Na prática, porém, manter o aleitamento exclusivo depende de muito mais do que da vontade da mãe. Dor, dificuldade na pega, cansaço, insegurança sobre a quantidade de leite, ausência de uma rede de apoio e retorno ao trabalho estão entre os obstáculos que atravessam essa experiência.

Em Chapecó, esses desafios convivem com uma estrutura de apoio que cresceu nos últimos anos. O município tem profissionais da atenção básica capacitados pela Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil, ações em Centros de Saúde da Família, ambulatórios de amamentação e um Banco de Leite Humano no Hospital Regional do Oeste. Ainda assim, a falta de um levantamento municipal recente e representativo impede responder com precisão quantas crianças permanecem em aleitamento exclusivo e quais mães encontram mais dificuldade para chegar aos seis meses.

O dado nacional mais completo disponível vem do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil, o ENANI-2019. A pesquisa apontou que 45,8% das crianças brasileiras menores de seis meses estavam em aleitamento materno exclusivo. Na Região Sul, a proporção foi de 54,3%, embora a diferença entre as regiões não tenha sido considerada estatisticamente significativa. A duração mediana do aleitamento exclusivo no país foi de três meses — metade do período recomendado.

A meta estabelecida para 2030 é que ao menos 70% dos bebês com menos de seis meses estejam em aleitamento exclusivo. Isso significa que o Brasil precisa elevar o indicador nacional em 24,2 pontos percentuais em relação ao ENANI-2019. Uma nova edição do estudo, o ENANI-2024, foi realizada, mas os resultados atualizados sobre amamentação ainda não haviam sido divulgados até a conclusão desta reportagem.

Há uma ressalva importante na leitura desses números. O indicador de 45,8% não acompanha cada bebê do nascimento até completar seis meses. Ele mede a proporção de crianças de zero a cinco meses que recebeu somente leite materno no dia anterior à entrevista. É esse mesmo indicador que serve de referência para a meta de 70%.

Dificuldades físicas aparecem desde o início

Um dos poucos estudos realizados diretamente com mães de Chapecó ajuda a dimensionar dificuldades que surgem nos primeiros meses. Publicada em 2014, a pesquisa entrevistou 42 mães de primeira viagem, atendidas por unidades básicas de saúde das regiões Norte, Sul, Leste e Oeste do município. Todas tinham bebês de dois a quatro meses, nascidos a termo.

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Entre as participantes, 35,7% relataram dor ou desconforto ao amamentar. A mama foi o local mais citado e, entre as que sentiam dor nessa região, dois terços relacionaram o problema a fissuras. Nenhuma das entrevistadas adotava a postura considerada ideal pelos pesquisadores, e 42,9% afirmaram manter os ombros tensos durante as mamadas.

O trabalho é antigo e tem uma amostra pequena, por isso não pode ser tratado como retrato atual de todas as mães de Chapecó. Os resultados, entretanto, mostram que dor, posicionamento e orientação técnica já eram problemas concretos no município. Em 2024, profissionais ouvidas em uma campanha da Unimed Chapecó voltaram a citar privação de sono, mudança de rotina, cansaço, dor, ingurgitamento e dificuldade na pega entre as queixas frequentes.

Essas intercorrências exigem atendimento rápido. Uma orientação recebida apenas no pré-natal pode não ser suficiente quando o bebê nasce e aparecem problemas que a mãe nunca havia vivenciado. Avaliar a mamada, corrigir a pega e acolher a queixa nos primeiros dias pode evitar que a dor e a insegurança levem à introdução precoce de fórmula, água ou chá.

A crença de que o leite é insuficiente

O choro do bebê, mamadas frequentes e mudanças no padrão de sono podem ser interpretados pela família como sinais de que o leite materno “não sustenta”. Sem orientação individualizada, a percepção de baixa produção pode abrir caminho para a oferta de outros líquidos ou substitutos do leite materno, mesmo quando não há indicação clínica.

O contexto regional reforça a necessidade de abordar o uso de mamadeiras e chupetas sem julgamento. Segundo o ENANI-2019, 54,8% das crianças menores de dois anos da Região Sul usavam mamadeira ou chuquinha, e 49% usavam chupeta. Os percentuais não são específicos de Chapecó e não permitem afirmar que esses objetos tenham causado o desmame em cada caso, mas o próprio estudo alerta que o uso pode prejudicar a continuidade da amamentação.

O apoio familiar também pode mudar o desfecho. Quando companheiros e parentes dividem tarefas domésticas, cuidados com o bebê e decisões sobre alimentação, a mãe ganha condições para descansar e buscar ajuda. Quando a rede repete mitos, pressiona pela fórmula ou responsabiliza apenas a mulher, o efeito pode ser o contrário.

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Licença termina antes dos seis meses

O retorno ao trabalho expõe uma barreira estrutural. A licença-maternidade prevista pela Consolidação das Leis do Trabalho é, em regra, de 120 dias. O Programa Empresa Cidadã permite a prorrogação por mais 60 dias nas empresas participantes, mas a adesão é voluntária. Para muitas trabalhadoras, portanto, a separação diária do bebê ocorre por volta do quarto mês, dois meses antes do fim do período recomendado para o aleitamento exclusivo.

A legislação assegura dois intervalos de meia hora durante a jornada até que a criança complete seis meses. O direito, sozinho, não resolve todas as dificuldades. A manutenção do aleitamento também depende de tempo real para a ordenha, local limpo e reservado, armazenamento seguro do leite e uma rotina de transporte até a casa ou a creche.

Em Chapecó, a Unochapecó inaugurou em 2022 uma sala de apoio destinada a estudantes, professoras, funcionárias e usuárias do campus. A existência dessa iniciativa mostra uma solução possível, mas ainda falta saber quantos dos grandes empregadores da região possuem espaços equivalentes, quantas trabalhadoras conseguem usar os intervalos previstos em lei e como creches públicas e privadas recebem e armazenam o leite ordenhado.

Rede local avançou

A atenção básica é uma das portas para enfrentar o desmame precoce. Em 2023, a Prefeitura informou que Chapecó contava com 44 tutores da Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil distribuídos pelos 26 Centros de Saúde da Família. Naquele ano, haviam sido realizadas 37 oficinas de capacitação em 23 unidades. As ações incluíam grupos de gestantes, visitas domiciliares, orientação em sala de espera e encaminhamento para consulta de amamentação.

Em agosto de 2025, o município voltou a capacitar auxiliares e técnicos de enfermagem da rede. Na ocasião, a enfermeira Ana Paula Simioni resumiu o tema como uma questão coletiva: “É vínculo, é proteção, é saúde pública”. A formação abordou técnicas de amamentação, dificuldades enfrentadas pelas mães e a necessidade de apoio desde o pré-natal até o retorno ao trabalho.

O Hospital Regional do Oeste também passou a contar com um Banco de Leite Humano. O serviço foi inaugurado em 2022 e integra atualmente a Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, da Fiocruz. Além de coletar, processar e distribuir leite para bebês que necessitam, os bancos de leite exercem papel de orientação e apoio às mulheres que enfrentam dificuldades para amamentar.

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Chapecó ainda reúne outras iniciativas, como o Ambulatório de Amamentação da Unimed e atividades acadêmicas e comunitárias promovidas pela Unochapecó e pela Udesc. O desafio é fazer com que a mãe saiba onde buscar ajuda e consiga ser atendida no momento em que a dificuldade aparece — não apenas durante as campanhas do Agosto Dourado.

O dado local que ainda falta

O Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, o Sisvan, disponibiliza registros de aleitamento exclusivo de crianças menores de seis meses acompanhadas pelo SUS. A própria plataforma alerta, contudo, que esses dados dependem do preenchimento pelas equipes municipais e não representam necessariamente todas as crianças do território.

Não foi localizado, nas fontes públicas consultadas, um inquérito recente e representativo da população de Chapecó que permita comparar o município diretamente com a taxa nacional ou com a meta de 2030. Também faltam dados públicos consolidados por bairro, renda, raça ou cor, vínculo de trabalho e condição migratória — recortes que poderiam revelar onde o apoio não chega com a mesma força.

Sem esse diagnóstico, o município conhece a estrutura que oferece, mas não enxerga completamente quem fica pelo caminho. Medir quantas crianças são acompanhadas, quantas recebem apenas leite materno e em qual mês ocorre a introdução de outros alimentos seria um primeiro passo. Ouvir as mães sobre o que aconteceu antes dessa mudança é o passo seguinte.

Amamentar não deve ser apresentado como uma prova de esforço ou de amor materno. Há situações clínicas em que o aleitamento exclusivo não é possível ou não é recomendado, e a mulher precisa receber cuidado sem culpa. Para as mães que desejam amamentar, alcançar os seis meses depende de apoio oportuno, orientação qualificada, divisão do cuidado e condições concretas no trabalho. Em Chapecó, a rede já tem pontos importantes; o desafio agora é descobrir se eles chegam a todas as mulheres quando elas mais precisam.

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