O debate sobre a violência contra animais ganhou força nacional após o caso do cão Orelha, espancado por adolescentes em Florianópolis (SC). Além da punição, a discussão avança sobre prevenção, ressocialização e como a educação pode interromper ciclos de crueldade.
Organizações e especialistas ouvidos pela Agência Brasil apontam que o contato positivo e os cuidados com os animais desde a infância são ferramentas-chave para construir uma sociedade menos violenta.
Teoria do Elo: violência animal como sinal de alerta
A campanha “Quebre o Elo”, do Instituto Ampara Animal, parte do princípio de que a violência contra animais não é um fato isolado. Ela pode ser reflexo de outras violências vividas pelo agressor ou um indicador de riscos futuros contra pessoas em situação de vulnerabilidade.
“A educação é o caminho para transformar a vida dos animais. Chamamos de ‘educação humanitária em bem-estar animal’ e entendemos como uma solução para criar uma sociedade mais empática”, explica Rosângela Gerbara, diretora da Ampara.
Interação gradual para desenvolver empatia
Para Rosângela, a aproximação com os animais deve ser feita de forma gradual, ensinando crianças a respeitar o tempo e o comportamento de cada espécie. O ideal é promover esse contato em ambientes naturais ou abrigos.
Essa interação ajuda a criança a entender sentimentos alheios, reduzindo comportamentos de intolerância. “É importante sair de uma visão antropocêntrica. O animal não é um objeto”, complementa.
Prática em abrigos: cuidar para educar
Viviane Pancheri, voluntária da ONG Toca Segura (DF/GO), relata que a instituição desenvolve há anos um trabalho de educação empática em escolas e no próprio abrigo, que abriga cerca de 400 animais.
“É crucial que as crianças percebam que os animais sentem medo, felicidade e abandono. Eles são sencientes”, afirma Viviane. O abrigo recebe famílias para atividades supervisionadas, onde os pequenos aprendem na prática sobre cuidado e responsabilidade.
Eventos que transformam vidas
A ONG promove “domingos de passeio” e feirinhas de adoção. Nessas atividades, adolescentes e crianças ajudam a cuidar e socializar os animais, criando um vínculo positivo.
“Tivemos uma menina que começou aos 15 anos com medo de cachorros. Hoje ela é veterinária. A supervisão na construção da responsabilidade é fundamental”, conta Viviane, emocionada.
Políticas públicas: o município como agente educador
Em São Paulo, o Centro Municipal de Adoção mantém programas estruturados de educação ambiental. O projeto “Superguardiões” recebe grupos escolares para mediação do contato com os animais, promovendo a guarda responsável.
“A criança é um agente multiplicador. Ela leva para sua família e comunidade o entendimento sobre respeito aos animais”, diz Telma Tavares, gestora do centro.
Outra iniciativa é o “Leituras”, onde crianças em fase de alfabetização leem histórias para cães e gatos, ajudando no letramento e na socialização dos animais.
Adoção responsável: regras de ouro
Especialistas listam pontos essenciais para uma adoção consciente, que evite o abandono e promova o bem-estar:
- Consenso familiar: Todos devem estar de acordo e cientes das responsabilidades.
- Avaliação realista: A família precisa ter condições materiais, de tempo e adaptação de rotina.
- Planejamento de vida: O animal deve se encaixar nos planos futuros da família.
- Compromisso: Planejamento é crucial para evitar o abandono e garantir cuidados adequados.




