Juros do crédito rural quase dobram e elevam inadimplência

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O crédito rural ficou mais caro nos últimos 4 anos e ajudou a empurrar a inadimplência entre produtores brasileiros, segundo um estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, que analisou o endividamento rural no Brasil entre 2013 e 2026. Entre 2021 e 2025, a taxa média dos financiamentos contratados por pessoas físicas passou de 6,3% para 12,2% ao ano, e a despesa anual estimada com juros saltou de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões.

O peso dos juros no crédito rural

A inadimplência do crédito rural de pessoas físicas saiu de 0,8% do saldo em dezembro de 2022 para 9,7% em agosto de 2026, o maior patamar da série histórica do Banco Central. A pesquisa diz que o problema não está necessariamente no aumento do volume de dívidas em relação à renda do setor, mas no encarecimento dos financiamentos, na mudança das fontes de crédito e na concentração das dificuldades financeiras em determinadas atividades e regiões produtoras.

Em 2025, o estoque de crédito rural correspondia a 94% da renda anual da agropecuária. Entre 2013 e 2019, essa relação ficou entre 87% e 109%, período em que a inadimplência era equivalente a cerca de um terço da atual. De acordo com o Cepea, a despesa anual estimada com juros passou de 3,9% da renda do setor em 2021 para 11,4% em 2025.

O estudo também mostra uma mudança na composição dos financiamentos. As fontes de crédito com taxas livres, como as vinculadas às Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), representavam só 5% do crédito rural contratado em 2013. Em 2023, essa fatia já havia avançado para quase metade do total. Como essas operações acompanham as variações da taxa básica de juros, a Selic, os produtores ficaram mais expostos ao aumento dos custos financeiros.

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Nesse grupo, os financiamentos com taxas livres concentram 77% do saldo em atraso no crédito rural. A inadimplência chega a 17,6%, bem acima dos 3,8% registrados nos financiamentos com juros controlados.

Grãos pressionam mais que a pecuária

O encarecimento dos financiamentos veio junto com uma queda das margens de rentabilidade em parte do agronegócio, sobretudo na produção de grãos. Segundo o Cepea, os preços reais dos grãos estão 28% abaixo dos níveis registrados em 2021. Ao mesmo tempo, a relação de troca entre grãos e fertilizantes atingiu o pior patamar da série analisada.

Essa combinação reduziu a capacidade de pagamento de produtores que contrataram financiamentos quando os preços estavam mais altos e depois passaram a lidar com custos financeiros maiores. Na pecuária, o cenário é diferente, com condições de mercado mais favoráveis em relação às observadas na produção de grãos.

Para os pesquisadores, uma das explicações para o aumento da inadimplência está no desencontro entre o momento da contratação das dívidas e as condições econômicas enfrentadas quando os pagamentos começaram a vencer. Investimentos feitos entre 2020 e 2022, período de margens mais favoráveis, passaram a exigir pagamentos em um cenário de juros mais altos e rentabilidade menor para os produtores de grãos.

Carteira problemática soma R$ 205 bilhões

Além das dívidas oficialmente classificadas como inadimplentes, o levantamento chama atenção para o volume de financiamentos que já passaram por renegociação ou prorrogação. Em agosto de 2026, a chamada carteira problemática do crédito rural somava R$ 205 bilhões, o equivalente a 23,8% do saldo total de financiamentos. Desse montante, aproximadamente três quartos correspondiam a operações renegociadas ou prorrogadas, que não aparecem diretamente nas estatísticas de inadimplência.

A situação muda conforme o estado. No Rio Grande do Sul, a inadimplência era de apenas 3,2%, mas o estado concentrava 21% da carteira problemática nacional e 27% do saldo de operações renegociadas ou prorrogadas, embora representasse só 13% do crédito rural do país. Em Goiás, a inadimplência chegou a 8,8%. No Maranhão e no Tocantins, os percentuais ultrapassaram 15%.

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O Cepea também avaliou as medidas de renegociação adotadas pelo governo federal. Segundo o estudo, a Medida Provisória 1.376/2026 havia viabilizado a renegociação de R$ 5,98 bilhões até 5 de outubro, valor equivalente a apenas 5% do montante estimado. Do volume renegociado, só 1,3% correspondia a dívidas relacionadas a investimentos.

Outro ponto levantado é que parte dos financiamentos não aparece por completo nas estatísticas tradicionais do crédito rural. O investimento agropecuário cresceu 71% desde 2019, e 64% desse total foi financiado por fontes externas ao crédito rural tradicional — recursos próprios, Cédulas de Produto Rural (CPRs), fornecedores e operações de leasing. As estatísticas disponíveis não permitem saber quanto disso é endividamento efetivo.

Diante desse quadro, os pesquisadores defendem que as soluções para o endividamento rural considerem as condições financeiras de cada propriedade, em vez de se limitarem ao alongamento generalizado dos financiamentos. O estudo diz ser preciso separar dificuldades temporárias de pagamento — ligadas à falta de liquidez — de situações em que a capacidade de pagar está estruturalmente comprometida. Essa análise deve levar em conta receitas, despesas, compromissos financeiros e capacidade de geração de caixa das propriedades.

Os autores também pedem mais dados sobre inadimplência por finalidade do financiamento, renegociações feitas diretamente entre produtores e credores e dívidas contratadas fora do sistema financeiro.

Fonte: Canal Rural

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