70% dos adolescentes usam IA, mas só 30% recebem orientação

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A inteligência artificial já faz parte da rotina escolar de muitos adolescentes, mas a orientação sobre como utilizar essas ferramentas com segurança ainda não acompanha o ritmo da adoção. Uma pesquisa da Common Sense Media com jovens entre 13 e 17 anos mostrou que 70% utilizam IA para fazer tarefas escolares, enquanto apenas 30% dizem ter recebido de professores alguma orientação sobre segurança.

A diferença preocupa especialistas não apenas pelo uso acadêmico da tecnologia. Entre os riscos estão a dificuldade para reconhecer informações incorretas produzidas por chatbots e um problema particularmente grave: a criação de deepfakes de nudez envolvendo crianças e adolescentes.

Educação sobre inteligência artificial ainda é limitada

Michael Robb, coautor do estudo e chefe de pesquisa da Common Sense Media, afirma que a alfabetização em inteligência artificial ainda não chegou de maneira suficiente às conversas com os jovens.

Isso inclui compreender como essas ferramentas funcionam, saber avaliar se uma resposta produzida por um chatbot é confiável e conhecer cuidados básicos para utilizar a tecnologia com segurança.

Segundo Robb, na maior parte das situações, esse tipo de orientação simplesmente ainda não acontece.

O resultado revela um descompasso importante: adolescentes estão incorporando rapidamente ferramentas de IA ao cotidiano antes mesmo de receberem formação adequada para compreender seus limites e riscos.

Deepfakes de nudez preocupam especialistas

Uma das consequências mais delicadas da popularização da IA generativa é a facilidade para manipular fotografias.

Os chamados deepfakes de nudez utilizam inteligência artificial para produzir imagens ou vídeos sexualizados falsos, inclusive fazendo parecer que uma pessoa está nua quando isso nunca aconteceu.

Chad Steel, professor adjunto de perícia digital da Universidade George Mason, avalia que adultos podem estar subestimando tanto a frequência desse comportamento entre adolescentes quanto o grau de familiaridade dos jovens com ferramentas de IA generativa.

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O problema ganha outra dimensão porque uma fotografia aparentemente inofensiva pode ser suficiente para uma manipulação. Uma imagem publicada em uma rede social, por exemplo, pode ter o rosto retirado e inserido artificialmente em outro corpo.

Consequências podem ultrapassar o ambiente escolar

Ainda não se conhece completamente o impacto de longo prazo sobre crianças e adolescentes vítimas desse tipo de conteúdo.

O material, porém, pode ser utilizado para humilhar, assediar ou ameaçar uma vítima. Steel alerta também para situações em que predadores podem usar imagens íntimas manipuladas como instrumento de chantagem, ameaçando compartilhá-las com familiares e amigos.

Além do sofrimento emocional, a circulação de uma imagem falsa pode acompanhar a vítima durante anos. Uma vez publicado e replicado na internet, o conteúdo pode se tornar extremamente difícil de controlar.

É justamente por isso que especialistas defendem que a prevenção aconteça antes de o problema aparecer.

Conversa precisa começar mais cedo do que muitos pais imaginam

A psicoterapeuta Justine Carino defende que famílias não esperem a adolescência avançada para conversar sobre sexualidade, exposição digital e imagens manipuladas.

Segundo ela, se assuntos relacionados a conteúdos sexualizados começarem a circular entre crianças durante o terceiro ou quarto ano escolar, os responsáveis já podem abordar o tema de maneira adequada à idade. Caso isso não aconteça, a recomendação é não postergar muito a conversa.

Para Carino, existe entre alguns pais o receio de que conversar sobre sexualidade possa incentivar determinados comportamentos. A especialista argumenta que antecipar informações funciona justamente como instrumento de prevenção.

Isso se torna ainda mais importante em um ambiente no qual uma criança pode ser pressionada não apenas a enviar uma fotografia, mas também a participar da criação ou circulação de uma montagem envolvendo outra pessoa.

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Crianças também precisam aprender a dizer não

Outro ponto destacado pelos especialistas é preparar os jovens para situações envolvendo os próprios amigos.

Um adolescente pode receber em um grupo uma imagem íntima falsa de um colega, ser convidado a criar uma montagem ou sofrer pressão para compartilhar determinado conteúdo.

Nessas situações, Carino considera fundamental ensinar que pertencer a um grupo não exige aceitar algo que provoque desconforto. A criança ou adolescente precisa saber que pode recusar e procurar um adulto de confiança.

Esse diálogo também pode fazer diferença quando o jovem ocupa o outro lado da situação e se torna vítima.

Se existe medo de punição, julgamento ou retirada imediata do celular, a tendência pode ser esconder o problema. Uma relação na qual existe espaço para conversar aumenta a possibilidade de que os responsáveis descubram rapidamente o que aconteceu e possam buscar ajuda.

Fotos nas redes sociais também exigem atenção

Steel recomenda ainda reduzir a exposição pública de fotografias de crianças e adolescentes e revisar quem consegue acessar seus perfis.

Manter contas privadas não elimina completamente o risco, já que imagens ainda podem ser copiadas ou compartilhadas por pessoas autorizadas a visualizá-las. A medida, entretanto, pode diminuir a exposição indiscriminada a desconhecidos.

O ponto central é compreender que os riscos mudaram. Antes, grande parte das orientações de segurança digital estava concentrada em evitar o envio de fotografias íntimas. Com ferramentas generativas, nem sempre uma fotografia íntima precisa existir para que uma falsa seja criada.

Uma foto comum publicada online pode se transformar em matéria-prima para uma manipulação.

Alfabetização em IA passa a ser também uma questão de segurança

Os dados da pesquisa mostram que ensinar inteligência artificial nas escolas não envolve apenas explicar como escrever comandos ou utilizar chatbots para estudar.

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À medida que essas tecnologias entram na rotina dos adolescentes, a alfabetização digital passa também por ensinar privacidade, consentimento, verificação de informações e consequências da manipulação de imagens.

Para famílias e escolas, o desafio é chegar antes do problema. Conversar sobre riscos não significa demonizar a tecnologia nem impedir que adolescentes utilizem inteligência artificial. Significa oferecer ferramentas para que reconheçam situações perigosas e saibam a quem recorrer quando alguma coisa sair do controle.

Fonte: CNN

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