7 em cada 10 brasileiras preferem parto normal no início da gravidez

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Resumo

O Unicef divulgou nesta segunda-feira (13) um estudo que ouviu gestantes, puérperas e profissionais de saúde em Belém e São Paulo, revisou 77 artigos e documentos institucionais, e mostrou por que muitas mulheres que querem parto normal acabam na cesárea, em um país onde ela é a forma mais comum de nascimento.

7 a cada 10 brasileiras preferem a via natural no começo da gravidez, segundo dados da FioCruz, mas orientações superficiais, pouca participação do parceiro e acesso restrito à analgesia pesam na decisão. O estudo também reuniu entrevistas na rede pública e na rede privada.

Barreiras começam antes da sala de parto

O estudo, intitulado “Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes”, foi divulgado nesta segunda-feira (13) pelo Unicef e analisou as barreiras que mulheres enfrentam na hora de decidir pela via de nascimento. A pesquisa partiu de um dado já conhecido: a cesariana é a forma de nascimento mais comum no país.

Luciana Phebo, chefe de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, resumiu o ponto central da pesquisa: “O nosso desafio não é ‘convencer’ as mulheres, mas garantir as condições para que elas possam fazer escolhas informadas e viver um parto seguro e respeitoso. E ter informação confiável, atendimento de saúde qualificado, acesso aos direitos e uma rede de apoio adequada faz toda a diferença para que isso aconteça. Quando promovemos um parto respeitoso, estamos protegendo não apenas os direitos das mulheres, mas também os direitos de cada criança a um início de vida mais seguro e saudável”.

Segundo o estudo, a decisão sobre o parto não depende só da vontade da gestante. Entram nessa conta fatores psicológicos e individuais, mas também elementos sociais e estruturais.

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Entre os obstáculos citados estão orientações superficiais sobre o parto, falta de participação do parceiro, desconhecimento sobre o Plano de Parto e acesso restrito à analgesia. A pesquisa também aponta que experiências de mães, avós, tias e sogras influenciam bastante as preferências das gestantes, sobretudo entre pacientes do SUS.

Os parceiros têm peso nessa escolha. Quando participam pouco do pré-natal, os acompanhantes podem ter mais dificuldade para entender o processo do parto e acabar pressionando pela cesariana quando o trabalho de parto começa. A falta de acesso à analgesia também leva algumas mulheres a enxergar a cirurgia como única saída para a dor.

Rede pública, rede privada e o que pode mudar

A pesquisa foi feita com revisão da literatura científica e entrevistas com mais de 130 gestantes, puérperas e profissionais de saúde em Belém, no Pará, e São Paulo. Ao todo, foram ouvidas 94 gestantes e puérperas — 73 do SUS e 21 do setor privado — em 11 grupos focais e 41 entrevistas individuais. Também participaram 37 profissionais de saúde; entre eles estavam gestores, médicos e enfermeiros de Unidades Básicas de Saúde, hospitais públicos e serviços privados.

No total, foram 131 pessoas ouvidas. O trabalho ainda revisou 77 artigos científicos e documentos institucionais sobre parto humanizado nos três níveis federal, estadual e municipal.

O levantamento organiza os achados em três níveis — psicológico, sociológico e estrutural — e usa a metodologia SBC, sigla em inglês para a estratégia do Unicef voltada à mudança social e de comportamento. A pesquisa foi realizada com apoio financeiro da farmacêutica MSD, por meio da iniciativa global MSD para Mães.

O estudo diz que algumas experiências ajudam a ampliar escolhas mais informadas e a autonomia das mulheres durante a gestação e o nascimento. Entre elas estão os Centros de Parto Normal; maior participação de doulas, obstetrizes e enfermeiras obstetras; programas de incentivo ao pré-natal; uso do Plano de Parto; expansão do acesso à analgesia e aos métodos não medicamentosos para controle da dor na rede pública; participação ativa do parceiro antes e durante o parto; e o compartilhamento de relatos com mulheres da rede de apoio — especialmente mães e avós, mas também amigas ou referências comunitárias.

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A ONU recomenda que poder público, rede privada de saúde e profissionais atuem juntos para que as mulheres tenham condições de escolher o melhor tipo de parto para si e para a criança. Para isso, o estudo defende qualificar o pré-natal com informações claras sobre fases do trabalho de parto, manejo da dor, Plano de Parto, direitos, analgesia e métodos não farmacológicos para alívio da dor; incluir orientação sobre laqueadura após parto vaginal e métodos contraceptivos reversíveis de longa duração; envolver parceiros e acompanhantes nas orientações; ampliar a atuação das doulas como apoio físico, emocional e informacional; mobilizar mães, avós, sogras, parteiras e referências locais; fortalecer conteúdos confiáveis nos espaços digitais onde gestantes buscam informação; ampliar políticas públicas para apoiar mães antes, durante e depois do parto; revisar modelos que favorecem a cesariana sem indicação médica com decisões baseadas em evidências; incluir capacitação sobre direitos, desigualdades e cuidado respeitoso na formação dos profissionais; criar modelos de financiamento e remuneração que não incentivem cesarianas sem indicação clínica; e monitorar indicadores de saúde materna e neonatal com transparência.

No fim da campanha “Parto normal. Uma escolha que merece respeito”, o Unicef chama gestantes, famílias, redes de apoio e profissionais de saúde a pensar sobre como opiniões podem pressionar as mulheres. O órgão diz que opinião não substitui informação de qualidade.

A reportagem é da CNN Brasil.

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