A autocoleta para detectar HPV pode se tornar uma alternativa importante para ampliar o rastreamento do câncer de colo do útero. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e publicado na revista científica Clinics aponta que a coleta de amostras em casa — como urina ou material vaginal — apresenta resultados muito próximos aos obtidos no exame realizado por profissionais de saúde.
A pesquisa indica que essa estratégia pode ajudar a ampliar o acesso ao diagnóstico precoce, especialmente entre mulheres que enfrentam dificuldades para realizar exames ginecológicos em unidades de saúde.
Esse tipo de rastreamento é essencial porque o HPV está diretamente ligado ao desenvolvimento do câncer de colo do útero. Para entender melhor os sinais da doença e a importância da prevenção, veja também nosso guia completo sobre Câncer do colo do útero: sintomas e importância do exame preventivo.
Autocoleta para detectar HPV apresenta resultados semelhantes ao exame tradicional
O estudo foi liderado por pesquisadores do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP).
Para avaliar a eficácia da técnica, os cientistas recrutaram 100 mulheres com mais de 21 anos. A maioria tinha entre 30 e 39 anos e havia sido encaminhada por Unidades Básicas de Saúde para exames mais detalhados após a identificação de alterações.
Durante o estudo, foram realizadas três formas de coleta:
- coleta de urina, realizada pela própria participante
- coleta de material vaginal, também feita pelas participantes
- coleta cervical tradicional, realizada por médico
Antes dos procedimentos, todas as voluntárias assistiram a um vídeo educativo com orientações sobre o processo e responderam a questionários para garantir que compreendiam corretamente cada etapa.
As amostras foram analisadas para detectar tipos de HPV considerados de alto risco oncogênico, responsáveis pelo desenvolvimento do câncer de colo do útero.
Os resultados mostraram que os métodos de autocoleta tiveram alta concordância com o exame clínico tradicional, inclusive na identificação do HPV16, um dos tipos mais associados ao desenvolvimento do tumor.
Coleta de urina foi considerada a opção mais confortável
Entre as participantes, a coleta de urina foi a opção considerada mais confortável e com menor sensação de constrangimento.
Mesmo assim, tanto a coleta de urina quanto a vaginal apresentaram alta aceitação, indicando que essas estratégias podem ser úteis para alcançar mulheres que hoje não realizam exames preventivos regularmente.
Fatores como:
- medo do exame ginecológico
- dificuldade de acesso aos serviços de saúde
- falta de tempo
- barreiras culturais ou religiosas
estão entre os principais motivos que levam muitas mulheres a adiar ou evitar o rastreamento.
Segundo os pesquisadores, permitir que a coleta seja feita em casa pode aumentar a adesão ao diagnóstico precoce.
Estratégia já é adotada em alguns países
A autocoleta vaginal já faz parte de programas de rastreamento em alguns países com sistemas de saúde organizados.
Entre as nações que adotaram a estratégia estão:
- Holanda
- Austrália
- Suécia
- Dinamarca
Nesses locais, a medida contribuiu para ampliar o número de mulheres que realizam exames preventivos.
No Brasil, a técnica ainda não está disponível de forma ampla no sistema público de saúde, mas especialistas avaliam que ela pode ser incorporada futuramente para aumentar a cobertura de rastreamento.
SUS já começou a implantar novo teste para detectar HPV
Em agosto de 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a incorporar o teste molecular para detecção do HPV como estratégia de rastreamento do câncer de colo do útero.
De acordo com o Ministério da Saúde, essa tecnologia é considerada inovadora porque permite identificar alterações que podem evoluir para câncer até dez anos antes do que o exame citopatológico tradicional, conhecido como Papanicolau.
A implementação está ocorrendo de forma gradual em todo o país e, no futuro, a expectativa é que esse método substitua o exame convencional como principal estratégia de rastreamento.
Prevenção ainda é a principal forma de combater a doença
Apesar dos avanços no diagnóstico, especialistas destacam que a prevenção continua sendo a principal forma de reduzir os casos da doença.
A vacinação contra o HPV é considerada uma das estratégias mais eficazes e está disponível gratuitamente no SUS para meninas e meninos entre 9 e 19 anos.
Além da vacina, outras medidas ajudam a reduzir o risco da doença:
- uso de preservativos nas relações sexuais
- realização regular de exames preventivos
- evitar o tabagismo
- manter hábitos de vida saudáveis
Mesmo mulheres vacinadas devem manter acompanhamento ginecológico periódico, já que o rastreamento é essencial para identificar alterações precocemente.
A Organização Mundial da Saúde alerta que, sem ações preventivas eficazes, o câncer de colo do útero pode provocar cerca de 411 mil mortes no mundo até 2030.
Fonte: CNN




