Nesta terça-feira (3) e quarta-feira (4), a Associação dos Pequenos Agricultores do Oeste Catarinense (APACO) recebe representantes do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) para conhecer os resultados do projeto de produção de óleos essenciais desenvolvido no Oeste de Santa Catarina em propriedades da região, e também oferecer às participantes uma oficina de fortalecimento de capacidades em administração, gestão de negócios de base comunitária e captação de recursos.
A visita técnica consolida o reconhecimento de uma iniciativa que vem transformando a realidade de agricultoras familiares e indígenas, fortalecendo a agroecologia, a geração de renda e a valorização do conhecimento tradicional.
O Projeto Fitoterápicos
O Projeto Fitoterápicos (BRA/18/G31) é uma iniciativa conjunta do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e do PNUD, com financiamento do Global Environment Facility (GEF). Iniciado em 2023, alcançou 40 propriedades da região com investimento de R$ 274 mil, estruturando a cadeia produtiva das plantas medicinais e promovendo organização, capacitação e autonomia às mulheres envolvidas.
Entre os avanços estão:
- Aquisição de um veículo próprio para transporte de insumos.
- Distribuição de cinco mil mudas de plantas medicinais nativas da Mata Atlântica.
- Implementação de padrão próprio de insumos e embalagens para comercialização.
- Aquisição de três destiladores semi-industriais elétricos (capacidade para 100 kg de planta fresca cada), destinados à Seara, à Associação Pitanga Rosa e à Casa de Ervas do Toldo Indígena Chimbangue, em Chapecó.
Transformação social e ambiental
Além do aumento na produção e na qualidade dos óleos essenciais e hidrolatos, o projeto impulsionou a organização comunitária. Foram criados três novos Grupos de Agroecologia formados exclusivamente por mulheres, e solicitada a certificação de 30 quintais medicinais junto à Rede Ecovida de Agroecologia, além de três hortos medicinais.
Um dos grupos visitados fica no Toldo Indígena Chimbangue, em Chapecó. A nutricionista e coordenadora de um grupo de mulheres indígenas Kaingang, Cleusa Domingas Rodrigues, afirma que o projeto chegou em um momento decisivo. “O projeto chegou na hora certa para o grupo de mulheres da minha comunidade, que já realizava esse trabalho de forma voluntária e pensando no coletivo. Beneficiou muitas famílias, não somente a minha.”
Hoje, o grupo produz hidrolatos, óleos essenciais, pomadas, xaropes e tinturas, comercializados em feiras, eventos e na própria casa de preparo. “Trabalhar com plantas medicinais valoriza nossa cultura e identidade ancestral, fortalece nossa comunidade e garante a proteção das matas e do território”, ressalta.
A coordenadora da APACO, Diva Vani Deitos, destaca que o maior legado foi a articulação das mulheres agricultoras. “Conseguimos unir conhecimento tradicional e organização produtiva, iniciando a formação de uma rede de fitoterápicos. As mulheres ampliaram sua participação em feiras, eventos e capacitações, fortalecendo renda e protagonismo.”
Novas perspectivas
Com o encerramento do projeto, a expectativa é manter e ampliar o cultivo das plantas medicinais, fortalecer a produção de fitoterápicos e incentivar a participação de jovens. A comercialização ainda é um desafio, especialmente diante das exigências legais. Para enfrentar esse ponto, a APACO articula a criação de uma Cooperativa de Produtos Orgânicos e a consolidação de uma rede de fitoterápicos, visando organizar e fortalecer a cadeia produtiva.
Como funciona a destilação
O processo inicia com a coleta e o beneficiamento das plantas, que são colocadas na dorna do destilador. Após cerca de uma hora, quando a água entra em fase de vapor, inicia a extração do hidróleo — composto pelo óleo essencial e o hidrolato (água floral). A separação é feita com funil específico, e os produtos são acondicionados em embalagens próprias. A tecnologia ampliou a eficiência, melhorou a qualidade dos extratos e fortaleceu a capacidade produtiva dos grupos.










