Projeto ensina adolescentes da Terra Indígena Kondá, em Chapecó, a produzir seus próprios documentários

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Oficina “Olhares Indígenas” reuniu estudantes da Escola Sape Ty Kó em 40 horas de formação teórica e prática ministrada por cineastas indígenas

Nasce em Chapecó o projeto “Olhares Indígenas”, uma oficina de cinema documental que, por duas semanas, capacitou adolescentes da Terra Indígena Kondá para que possam criar os seus próprios filmes. A iniciativa se coloca na contramão de uma tradição do cinema e do registro documental sobre povos originários no Brasil, historicamente marcada por narrativas mediadas por olhares não indígenas.

  • O que é: oficina de cinema documental voltada a adolescentes indígenas, para que produzam seus próprios filmes.
  • Números principais: 40 horas de imersão teórica e prática, ao longo de duas semanas, para estudantes a partir dos 12 anos.
  • Onde: Terra Indígena Kondá, em Chapecó, com participação de estudantes da Escola Sape Ty Kó.
  • Quem afeta: adolescentes indígenas da etnia local, professores da escola e a comunidade da Terra Indígena Kondá.

O que é o projeto Olhares Indígenas em Chapecó?

Olhares Indígenas é uma oficina de cinema documental viabilizada pelo Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura, Edital nº 107/2025, por meio da Fundação Catarinense de Cultura, e proposta pela produtora Margot Filmes. A ação ofereceu 40 horas de imersão teórica e prática para adolescentes a partir dos 12 anos, estudantes da Escola Sape Ty Kó, localizada na Terra Indígena Kondá.

O objetivo central foi promover um movimento de apropriação da linguagem cinematográfica e de transferência de saberes, para que os próprios adolescentes indígenas passem a contar suas histórias, sem depender de olhares externos.

Quais atividades os estudantes realizaram durante a formação?

Durante a formação, os estudantes participaram de uma mostra de cinema indígena, conhecendo o trabalho de cineastas do país. Também foram apresentados às etapas de desenvolvimento de um documentário, criaram vídeos do minuto, experimentaram funções diversas dentro do setor audiovisual e se apropriaram do entendimento de equipamentos. Ao final, desenvolveram, de maneira coletiva, o próprio documentário.

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A proposta buscou trazer autonomia técnica aos jovens, canalizando o uso cotidiano de tecnologias acessíveis, como os smartphones, para a linguagem cinematográfica.

Quem ministrou as oficinas na Terra Indígena Kondá?

A formação foi ministrada pelos cineastas Vanessa Fé Há, da etnia Kaingang, e Jucelino Senei Filho, da etnia Laklãnõ-Xokleng, ambos diretores e roteiristas com trajetória consolidada no cenário audiovisual brasileiro. A ação contou ainda com o acompanhamento do psicólogo indígena Tschucambang Ndili.

Segundo Ilka Goldschmidt, uma das idealizadoras do projeto, um dos pontos mais importantes da iniciativa foi o processo pedagógico ter sido pensado, planejado e alinhado à cultura indígena, a partir de uma equipe majoritariamente indígena. “Isso engrandece muito o nosso encontro, pois trazemos referências profissionais para esses estudantes”, afirmou.

Qual é o significado da oficina para os cineastas indígenas envolvidos?

Para a cineasta Vanessa Fé Há, ministrante da primeira semana de formação, a atividade representa um momento de reafirmação. “A oficina colabora para que os estudantes indígenas se entendam, se reconheçam e se afirmem indígenas”, disse. Ela comparou a experiência ao plantio de uma semente, cujo fruto espera colher em algum tempo.

Jucelino Senei Filho, que ministrou as ações práticas de desenvolvimento documental, também é um exemplo direto do alcance dessas oficinas. Ele contou que participou de uma formação semelhante em 2014, na Terra Indígena, experiência que despertou seu interesse pelo curso de jornalismo, concluído posteriormente na Universidade Federal de Santa Catarina. “Acho muito importante mesmo para que essas crianças saibam que se elas quiserem elas podem conseguir”, afirmou.

Como o projeto se relaciona com as políticas públicas de cultura indígena?

A realização da oficina ocorre em um momento particular para a política cultural brasileira. Embora existam iniciativas pioneiras de cinema indígena há décadas no país, foi com o aprimoramento recente de políticas públicas, como a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc, que o acesso dos povos originários aos recursos de fomento cultural descentralizado se consolidou.

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Para o documentarista Cassemiro Vitorino, da equipe da Margot Filmes, a formação responde diretamente a esse contexto. Segundo ele, não basta garantir editais com cotas se o conhecimento burocrático e o domínio do sistema audiovisual não forem democratizados. Ele defende que o projeto capacita os jovens e os professores a atuarem como agentes culturais, capazes de formatar propostas e disputar recursos sem intermediários.

Onde é possível acompanhar as atividades do projeto?

Todas as atividades do projeto “Olhares Indígenas” podem ser acompanhadas pelas redes sociais, através do perfil @oficinadoc.olhares.

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